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Sargento do Exército vendeu para o PCC munição desviada da operação no Alemão



Pelo menos 700 munições de fuzil calibre 7.62 que foram desviadas da Força de Pacificação do Exército (que atuou nos complexos do Alemão e da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, até 2012) acabaram sendo revendidas para traficantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). O caso vem à tona às vésperas da ocupação do Exército de mais um conjunto de favelas cariocas controladas pelo tráfico: desta vez, a Maré.
O Ministério Público Militar (MPM) ainda investiga o “sumiço” de outros 28 mil cartuchos de fuzil 7.62 da ocupação no Alemão. As 700 munições foram repassadas por dois militares do 28º Batalhão de Infantaria Leve (BIL), sediado em Campinas (SP), ao traficante Luciano Santana Barbosa, o Malaca, de 35 anos, segundo denúncia do MPM.
Denunciado pelo crime de receptação, Malaca teve a prisão preventiva decretada pela Justiça Militar no último dia 20. Se condenado, pode pegar até cinco anos de prisão. Acusado de integrar o PCC, Malaca está foragido desde julho de 2010, quando conseguiu escapar do Presídio de Pedrinhas, em São Luís (MA). Também foram denunciados o sargento Ivan Carlos dos Santos, de 40 anos, e o soldado Geraldo Júnior Rangel dos Santos, de 22.
Lotados no 28º BIL, respondem pelo crime de peculato-furto. A pena varia de três a 15 anos de reclusão. O desvio das 700 munições do Exército foi descoberto por acaso, durante uma investigação conduzida pela 5ª Delegacia de Repressão a Roubo a Bancos, da Polícia Civil de São Paulo, sobre uma quadrilha especializada em explodir caixas eletrônicos no interior do Estado. O sargento Ivan foi flagrado em interceptações telefônicas negociando munições para fuzis AK-47 com dois traficantes.
Também foram monitoradas mensagens de texto, nas quais descobriu-se que cada cartucho era vendido por R$ 10. Com isso, os investigadores obtiveram na Justiça comum um mandado de busca e apreensão na residência do sargento. A ordem foi cumprida em 6 de abril do ano passado. No local, os policiais encontraram 23 munições de fuzil 7.62, 20 munições e um carregador de pistola 9mm, além de 173 munições de festim 7.62.
Depois de ser preso, o sargento Ivan admitiu, em depoimento à polícia, ter vendido 700 munições de fuzil 7.62 para Malaca. Segundo o militar, as munições eram “sobras” da Operação Arcanjo 6, desempenhada por militares do 28º BIL no Complexo do Alemão, no Rio, em 2012. Ele exercia no 28º BIL a função de furriel (responsável pelo controle de uso de munição). Na delegacia, o sargento reconheceu o traficante Malaca por foto. Disse ainda que as munições foram entregues ao bandido por ele próprio, numa praça de Campinas.
Já o soldado Rangel, que era auxiliar do sargento Ivan, disse à Polícia Civil que tinha a incumbência de registrar o uso de munições nos treinamentos no 28º BIL. Admitiu que normalmente registrava mais munições do que as efetivamente consumidas. Revelou ainda que o sargento guardava as munições desviadas no cofre da sala do furriel, e que depois as transportava para casa.
O soldado também admitiu ter fornecido ao sargento o contato de Malaca. Os dois militares tiveram a prisão decretada pelas Justiças comum e Militar. O soldado já responde em liberdade. O sargento permanece preso preventivamente por conta do processo na Justiça comum.
Quando o 28º BIL chegou ao Complexo do Alemão, o Batalhão de Apoio Logístico no Rio liberou 40 mil munições, para que os fuzis que seriam empregados na operação fossem ajustados. Segundo o promotor Claudio Martins, do MPM-SP, os militares de Campinas só conseguiram consumir 12 mil munições.
A Força de Pacificação teria tentado devolver os 28 mil cartuchos que sobraram. Contudo, o Batalhão de Apoio Logístico não teria aceitado, porque já tinha dado baixa patrimonial na munição. Terminada a Operação Arcanjo 6, os militares transportaram as 28 mil munições para a sede do 28º BIL. “Agora estão tentando nos explicar o paradeiro dessa munição. Houve uma falha operacional grave do Exército”, disse o promotor ao Estado.

Outro lado
Apesar de terem admitido o crime à polícia, em depoimento à Justiça Militar os militares negaram as acusações. O advogado José Ricardo de Mattos, que defende o sargento, disse que as munições de fuzil encontradas na casa de seu cliente eram de festim.
“Havia munições reais apenas de pistola 9 mm. Como é sargento, ele tinha direito de possuí-las. Ivan nunca subtraiu munição do Exército. Não há qualquer documento que comprove isso. Ele também não tem qualquer ligação com o tráfico”. O advogado Samuel Pacheco, que representa Rangel, alegou que o soldado em nenhum momento é citado nas interceptações telefônicas negociando as munições com traficantes.
“Se isso fosse verdade, meu cliente estaria rico. Ele sequer conhece o Malaca e não poderia ter repassado o telefone dele para o sargento”. O Estado não conseguiu localizar nos processos nenhum advogado de defesa de Malaca.